Famílias que buscaram cartas psicografadas com Maira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. No lugar do conforto, a decepção. Famílias que buscaram cartas psicografadas com Máira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. Durante mais de dois meses, os repórteres investigaram as denúncias, ouviram pesquisadores e representantes de entidades espíritas e reconstruíram a trajetória de Máira Rocha. Contra ela também existem acusações de ameaças, charlatanismo e estelionato. Procurada pelo Fantástico há mais de duas semanas, Máira não quis gravar entrevista. Para a empresária Marina Escames, a perda de seu marido Thiago foi devastadora: "Quando ele partiu, pra gente foi uma ruptura que é muito difícil aprender a viver sem ele". A comerciante Marcela Magalhães relata a dor de enterrar seu filho Henrique, de 18 anos, que faleceu em um acidente de carro : "Você precisa se agarrar a qualquer coisa, porque senão você afoga você vai junto com ele. Enterrar um filho é atravessar a maior dor. Muitas vezes, para quem fica, a morte cria uma necessidade de buscar respostas na espiritualidade . Thiago, o marido de Marina, morreu de leucemia . "Eu sou espírita kardecista desde que nasci, então eu sempre acreditei muito na psicografia, nos médiuns. Então eu queria muito uma notícia dele". A ajuda espiritual para Marina também tinha como objetivo aliviar o sofrimento do filho caçula, Matteo, que tinha apenas 3 anos quando o pai morreu. Também era do pai que Diva Mascarenhas Borges sentia falta. "Eu tive a informação de que tinha uma pessoa que recebia cartas, e que era muito boa". Diva e Marina procuraram a mesma pessoa, Máira Rocha . A médium declarava publicamente: "Eu quero propagar a palavra de Deus". Marina conta que acreditava piamente em Máira devido a vídeos recomendados por seu pai : "Eu acreditava piamente que ela seria uma ponte entre mim e o Thiago". Máira Rocha Reprodução/Globo A advogada Máira Rocha é conhecida como médium em Brasília. No espiritismo, médium é quem serve de intermediário entre as pessoas e os espíritos. Ela também trabalha no Ministério da Saúde. No começo deste ano, Máira Rocha construiu seu próprio centro espírita, a Casa da Caridade Inácio Daniel. A instituição atende cerca de 5 mil pessoas por mês, sobrevivendo de doações e ajudando pessoas necessitadas com alimentos, roupas e agasalhos. Em uma de suas transmissões ao vivo, ela declarou: "Procurem fazer o bem, em nome de quem você acreditar, porque Deus vai estar ali". Essa generosidade inicial encantou o ex-voluntário Antônio Carlos Felizola. "Fazíamos um bazar, também doávamos roupa, e também a Maira logo que chegou, fundou a sopa". Boa parte das atividades da Casa da Caridade é voltada para os atendimentos espirituais. O trabalho de cartas psicografadas, também chamadas de cartas consoladoras, é coordenado por Máira, e as doações servem como agradecimento das famílias. Marina Escames relembra que contribuía frequentemente: "Quando eu recebi a carta, eu me senti muito grata, então eu quis realmente fazer algumas doações. Ela estava construindo a nova Casa da Caridade. Você comprava o tijolinho, que ela ia colocar o nome da pessoa que tinha partido". Máira defendia a arrecadação financeira alegando que sua mediunidade não poderia se afastar da matéria : "A Casa da Caridade poderia funcionar com seu trabalho só mediúnico, se fosse só mediúnico, mas não existe essa possibilidade da mediunidade da Máira se afastar do campo material". Outra modalidade de arrecadação do centro eram os leilões de roupas e objetos que a médium usava em suas sessões de cartas consoladoras. A aposentada Arlete Pereira justifica sua participação nos leilões: "A gente confiava nela, então eu queria uma roupa com a energia dela porque ela convivia com nossos espíritos, dos nossos filhos, dos nossos familiares". O olho grego foi uma das peças mais caras arrematadas pelos seguidores. Máira Rocha destacou o valor do amuleto ao entregá-lo para um seguidor : "Eu coloquei as minhas energias nesse amuleto. Todas as energias ruins que eu tinha, ele me tirou e me trouxe muitas alegrias. Eu entro em casa todos os dias e vejo muitos espíritos ali perto deles." Entretanto, práticas de leilão são rejeitadas pelas instituições oficiais do espiritismo . Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), faz uma crítica clara ao modelo. "A doutrina não nos autoriza, não nos ensina a realizar leilões, esse tipo de prática. Ela nos ensina a servir. E servir de forma desinteressada ." Em diversos vídeos, Máira Rocha afirmava que seus dons mediúnicos haviam surgido na infância, quando ela vivia em Jati, no Ceará, cidade de 8 mil habitantes. "A minha mãe conta as primeiras experiências a partir dos quatro anos. Eu me recordo a partir dos sete anos". Essa mediunidade, no entanto, nunca foi notada por seus familiares na pequena cidade . Ao ser perguntada sobre o dom de Máira, sua prima Márcia Rocha declarou : "Não. Novidade, novidade para todos nós. Como a cidade é pequena, essa mediunidade que ela alega ter não passaria despercebida". Márcia também desmistificou a história do apelido de Máira, "Lê", que a médium afirmava ter recebido de um espírito que a ensinou a ler. "Na verdade, o apelido Lê veio do nome Alexandrina, de Máira Alexandrina". O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola relembrou discussões constantes entre ela e seu esposo : "O marido dela, eles brigavam muito. Ele falava: eu vou contar para todo mundo que isso é uma farsa. Você é uma farsante!" As denúncias de fraude ganharam força a partir das inconsistências em cartas enviadas a famílias enlutadas. Marcela Magalhães, vulnerável pela dor de perder o filho Henrique, de 18 anos, relata como se sentia ao buscar ajuda : "É tanta dor, é tanta dor que você, você acredita em qualquer coisa." Ela relata que recebeu dois recados de seu filho Henrique durante uma transmissão ao vivo realizada por Máira Rocha. Na live, Máira mencionou o jovem : "Eu eu tô com o Henrique, um jogador de futebol que desencarnou muito cedo, mas mãezinha, ele tá bem." No entanto, Henrique nunca foi jogador de futebol profissional, fato que alertou o marido de Marcela : "Meu marido virou pra mim e falou assim: mas ele não é jogador de futebol. Pra mim foi um erro, dela." Marcela mais tarde identificou a origem do erro: uma fotografia de Henrique vestindo um uniforme esportivo que estava vinculada a uma reportagem de jornal sobre seu acidente de carro. A reportagem original havia cometido o mesmo erro ao descrever Henrique como jogador de futebol. Um segundo recado de Máira gerou ainda mais desconfiança, ao associar Henrique a outras duas pessoas no carro. A médium errou ao assumir que os amigos que apareciam na foto estavam envolvidos no acidente de carro. A imagem na realidade era uma montagem de uma campanha de alimentos realizada durante a pandemia, reunindo fotografias de três jovens que faleceram em épocas e circunstâncias distintas como uma homenagem de Marcela em suas redes. "O Henrique morreu de acidente em fevereiro de 2020. O João morreu de AVC em abril de 2020, e a Letícia morreu de um mal súbito, em 2005." O cruzamento sistemático de dados é uma prática comum de quem investiga golpes online, como explica o youtuber Guga Guimarães. "Então, além de cruzar os dados que estão na internet disponíveis, ainda tem as matérias online, quando a morte é trágica, e também as redes sociais dos parentes, que também é fácil encontrar. Infelizmente, a nossa vida toda está disponível na internet para quem quiser ver." O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola revelou que já tinha sérias suspeitas sobre a idoneidade das informações obtidas por Máira : "E, sinceramente, eu comecei a desconfiar. Chegavam pessoas que já receberam carta, questionando a carta." O Fantástico conversou com alguns dos maiores especialistas e pesquisadores do espiritismo e das atividades mediúnicas no Brasil. Todos reforçam a importância da carta psico fotografada, feita de forma séria, que leva conforto para quem perde alguém. Mas autoridades da doutrina espírita também fazem um alerta sobre fraudes cometidas por falsos médiuns. A reportagem é sobre pessoas que se sentiram enganadas durante o período mais difícil da vida e como, apesar da dor, é preciso estar atento a detalhes. Pedro Camilo é escritor e pesquisador espírita e investiga fraudes em cartas psicografadas. Segundo ele, dados fornecidos ao médium e pedidos de prazos longos para entregar a carta, são alguns dos pontos que merecem atenção. "Com essas informações é possível fazer uma varredura nos bancos de dados que existe na internet, elaborar um dossiê sobre aquela pessoa e sobre possíveis parentes desencarnados que que podem ter as suas informações transmitidas." Marina Escames descreveu o rígido protocolo burocrático exigido pelo centro de Máira antes das sessões : "Antes da data da psicografia, 60 dias antes, você precisa se inscrever , você e o seu acompanhante, e passar o nome completo, o CPF da pessoa que vai e do acompanhante." Marcela Magalhães relatou exigências semelhantes de documentação e passagem : "Nome completo, sem estar abreviado, e mandar um comprovante ou de hotel ou do avião." Este modelo burocrático difere drasticamente da conduta do médium mais conhecido do Brasil, Chico Xavier, como reforça Jorge Godinho: "Tinha uma multidão de pessoas, ele não sabia quem estava. Ele não tinha CPF, não tinha endereço, nada disso. Porque o telefone ele toca do alto para cá. E aí aqueles espíritos que ali estavam, que iriam trazer alguma informação, ele psicografava." Durante sua ida à Casa de Caridade Inácio Daniel, Marina Escames presenciou um ritual conhecido como "fila do abraço", realizado antes da sessão psicográfica, onde a médium costumava extrair informações de forma direta e sutil . "Então, na realidade, ela também tem esse contato, ela faz uma fila de abraço antes da psicografia." . Ao ser completada pela repórter Lilia Teles sobre a coleta de dados, Marina confirmou. " Ela perguntou o nome do meu marido completo, ela perguntou do que ele tinha falecido, eu dei uma foto dele e, assim, realmente, nessa fila de abraço, ela pegou várias informações." Na mesma sessão, Matteo, filho mais novo de Marina, correu para entregar uma cartinha pessoal à médium : "O Matteo saiu correndo antes de mim, porque estava bem cheio, chegou até ela com uma cartinha que ele tinha feito, que queria que ela entregasse para o pai dele." Dias depois, durante uma palestra pública, Máira anunciou uma revelação : "olha, tem um marido que eu conversei ontem que falou que ama a esposa. Ama pra cacete". Marina achou o jargão incomum para o perfil do marido : "Aí na hora não caiu minha ficha porque meu marido nunca falou assim. Ele sempre falava que me amava mais que tudo, que eu era a vida dele, mas não essa palavra." Contudo, ao buscar em seus arquivos de fotos e redes sociais, identificou um print antigo de um parabéns do marido que trazia a mesma expressão : "Eu entrei nas minhas fotos, que eu tenho prints de redes sociais. E lá estava uma mensagem que o Tiago me mandou de aniversário E no final ele falou: 'te amo pra cacete'. Aí eu falei: 'poxa, então é o Tiago, né? É o Tiago que mandou essa mensagem." Marina descobriu ainda que Máira havia levado as cartas prontas para o local : "Nesse dia ela falou que ela tinha já levado as psicografias prontas de casa." Ao ser indagada por Lilia Teles sobre os termos descritos na carta, Marina contou : "Falou que ele era um pai muito apaixonado e falou que eu era a âncora dele. E realmente ele tinha uma tatuagem de âncora com meu nome." A carta também relatava momentos de hospitalização e citava chá de camomila : "Passamos noites terríveis, de dor, febre e você lá, naquelas cadeiras, junto comigo. Ele tá dizendo que não aguenta nem ver chá de camomila." Marina lembrou que esse detalhe constava em um vídeo publicado por ela na internet : "Tem um vídeo que ele tá colocando, que eu tô colocando chá de camomila gelado, porque ele tava com o braço infeccionado, inflamado." Foi o filho Nicolas quem percebeu que havia algo errado. Ele acessou a rede social do pa, que estava inativa. "Eu entrei e acabei vendo muita semelhança em relação à carta. E aí na hora eu chamei a minha mãe e falei: 'mãe, olha, tá tudo aqui!'" . A mãe confirmou a descoberta após olhar o perfil . "Tinha o vídeo da camomila. Tinha minha tatuagem e o "te amo pra cacete" no final. E ali eu vi que realmente estava tudo na internet. " O único elemento ausente nas redes era a menção a um episódio de bullying sofrido pelo caçula Matteo, apontado na psicografia. "O amiguinho falou que ele era sem pai. E ela citou isso na carta. "'Matteo, agora você vai mostrar pra todo mundo que você tem um pai.' Ele chorou, ele tinha nove anos, ele pulava de chorar. E no fundo eu fiquei muito muito feliz de ele ver que o pai dele estava vivo, que o pai dele amava ele." A surpresa foi desfeita quando Marina percebeu que Matteo havia relatado o bullying no bilhete entregue diretamente à médium. "Eu sentei para conversar com meu filho. Eu falei: você conversou com ela? No dia que ele saiu dando a cartinha, ele conversou e eu não vi." Ao ser questionado, o menino confirmou : "não, mãe, eu conversei, a única coisa que eu falei realmente pra ela, eu falei que era se ela podia entregar a cartinha pro meu pai, e que ele me mandasse uma carta pra eu poder mostrar pro meu amiguinho que falou que eu sou sem pai." Para Marina, a mentira foi devastadora : "pronto, a única coisa que me apegava foi o meu filho que falou pra ela!. O que mais me machucou foi o que ela fez com o meu filho. Foi o segundo luto, tanto para mim quanto para o meu filho." O menino entrou em depressão após descobrir a farsa . Em apoio às vítimas, sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime contra Máira Rocha na Justiça por estelionato, charlatanismo e por crime cometido com base no artigo 232 do ECA: submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento. O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explica o crime de estelionato espiritual : "O tipo de estelionato é justamente quando procura, nesse caso específico, se instrumentalizar a fé, ou seja, enganar a pessoa dizendo que possui informações extraordinárias, quando na verdade está enganando a pessoa, está buscando informações em bancos de dados, eventualmente na internet, e entregar uma carta psicografada que na verdade ela é fake." Diva também encontrou erros na carta do pai. "Logo no início da carta fala que meu tio queria falar com Judite. Judite é a esposa do meu tio. Só que a minha tia já tinha falecido um ano antes do meu tio falecer. Então, parecia que meu tio tava que ele não sabia que a mulher tinha falecido." Diva também achou estranho como a carta se refere a dois irmãos dela. "E eles são filhos adotivos, assim como eu, foram registrados como Edvano e Edvani. Quando minha mãe e meu pai adotaram, eles acrescentaram o nome Sheila e André Luiz. Então ninguém chamava na família a Sheila e o André de Edvano e Edvani. " Sheila chegou a retirar o nome Edvani da identidade. Mas são esses nomes, Edvano e Edvani, que aparecem na carta. "Tava ali, na nternet. A ordem todinha do inventário era igualzinha a que estava na carta. É como se estivesse copiado e colado. Eram erros assim que estavam ali e que meu pai não cometeria." A carta dizia ainda que o aniversário do pai de Diva seria no dia 5 de maio, mas a data estava errada. "Começa falando que era aniversário dessa pessoa. Eu relaxei, porque o meu pai, ele nasceu dia 16 de maio. Ela continua lendo a carta e ela vai citando nomes. Minhas filhas é que falaram assim: "Mãe, é o vovô,. Você fica na dúvida. Por que que ele erraria o aniversário dele? Foi, aí eu comecei a fazer pesquisa e aí saiu um blog de Jequié, que é a terra dele. Constava que ele tinha nascido dia 5 de maio de 1918. E eu falei: "epa, o erro tá aqui" Ali meio que desmontou toda a carta. Só que você tá dentro de um ambiente que é assim, lotado de gente, todo mundo muito emocionado, pessoas chorando e você é meio que envolvido dentro desse turbilhão de sentimentos, de emoções. " Diva procurou a Federação Espírita do Distrito Federal e descobriu que já havia outras denúncias. "Essas pessoas traziam um luto, uma dor muito grande e buscaram nessas cartas uma espécie de consolo. E aí depois descobriam que aquela carta não era verdadeira ou que as informações eram informações, ou estava em jornais, ou em internet, em mídias sociais", diz Paulo Costa, presidente da entidade. Silvano é outro que também denunciou Máira Rocha. Ele considerou a carta da mãe, morta no ano 2000, uma fraude. "Ela coloca o seguinte: "Saudade de todos, queria ter convivido com todos os meus netos. Ivy, Gabriel, Taiyana, Rafael, Tabata, Walesca, Leticia, João Lucas, Nicole, Luis e Silvano. Nós percebemos que ela esqueceu de um neto. Minha mãe não esqueceria de um neto. Mas o mais sério é a Tábata. A Tábata não é neta da minha mãe. Ela é sobrinha da minha cunhada. Eu resolvi registrar um boletim de ocorrência. Na Polícia Civil do Distrito Federal, eu relatava a carta, né, e dizia das incoerências." Silvano registrou duas novas ocorrências no Distrito Federal, por charlatanismo e por ameaça. Antônio e a mulher dele também foram ouvidos no mesmo inquérito que investiga fraudes com cometidas por Máira Rocha. Há registros policiais contra ela em pelo menos cinco estados, por estelionato, calúnia e difamação e ameaça. Além disso, o Ministério Público recebeu e analisa acusações por apropriação indébita, desvio de recursos, rede de influência com servidores públicos. As vítimas dizem que ainda tem muitos que desistem de denunciar por medo das ameaças. Ela falou comigo: "Se eu continuasse que ela ia fazer uma live aonde ela ia contar determinadas coisas que eu tinha contado para ela, uma dor muito grande, um problema muito sério que havia acontecido comigo e que eu desabafei com ela", diz Marcela Magalhães. A própria Máira Rocha deixa claro que não tolera questionamentos. "Cuidado na pedra que você joga, tenha absoluta certeza que seu telhado não é de vidro. Para você possa fazer isso. Se a pessoa for lá dizer que eu peguei na internet, até eu posso completar o recado. Agora se ela vai gostar é, de ser dito isso em público, eu não sei, né? Eu prefiro responder um processo cível, porque provavelmente vai acontecer, já que eu vou falar o nome das pessoas, prefiro pagar, né? Prefiro pagar a indenização." O psicólogo e pesquisador Everton Maraldi fala dos impactos negativos numa pessoa em luto que se sente enganada. "Esse efeito, ele pode ser para muitas pessoas desastroso. Você pode levar essa pessoa a questionar as suas crenças, a sua visão de mundo e prejudicar o seu bem-estar, a sua saúde mental." As cartas psicografadas são temas de pesquisas científicas há pelo menos 15 anos no Brasil. Elas buscam explicar a atividade mediúnica e o que acontece durante as sessões de psicografia realizadas com total seriedade. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde, o NUPES, é um dos centros de estudo mais ativos do Brasil. Ele é liderado pelo psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida. "Nós selecionamos médiuns que fazem esse trabalho de ponto de vista voluntário, que não tem nenhum benefício material com isso. O segundo critério: nós selecionamos pessoas que vão ter contato com esse médium, pessoas enlutadas, mas essas pessoas não têm contato prévio. E depois quando começa a pesquisa em si, quando o médium encontra o familiar, o médium é monitorado continuamente até o momento que ele psicografa. Há, de modo muito consistente, evidências de que há pessoas médiuns que são realmente capazes de obter informações muito precisas sobre as pessoas falecidas sem ser por meios convencionais." O Fantástico enviou mensagens, ligou, procurou Máira Rocha diversas vezes para que ela respondesse as denúncias de fraude nas cartas psicografadas, mas Máira não aceitou gravar entrevista. "Eu estou fazendo isso quase como um apelo. Que a pessoa tem cautela ao estar buscando esses falsos médiuns. Porque isso prejudica. Eu chamo de estelionato por luto, prejudica mais o sentimento de perda. Porque ali não há uma autenticidade daquela mensagem, é uma mensagem forjada. É um crime lesa-a-Deus.", diz Jorge Hessen, pesquisador do Espiritismo. "O próprio Allan Kardec, O Livro dos Médiuns diz que todo médium que for pego em fraude deve ser sim denunciado, deve ser desmascarado para que as pessoas verdadeiramente sérias não sejam enganadas por aquele indivíduo, não sejam levadas à falsa compreensão, a uma compreensão mentirosa da realidade", diz Pedro Camilo. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo. PRAZER RENATA O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1, no Globoplay, no Deezer, no Spotify, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, na Amazon Music ou no seu aplicativo favorito. 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Famílias acusam médium de fraudar cartas psicografadas com dados coletados na internet
Escrito em 07/09/2026
Famílias que buscaram cartas psicografadas com Maira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. No lugar do conforto, a decepção. Famílias que buscaram cartas psicografadas com Máira Rocha acusam a médium de coletar informações na internet para produzir as supostas mensagens dos mortos. Durante mais de dois meses, os repórteres investigaram as denúncias, ouviram pesquisadores e representantes de entidades espíritas e reconstruíram a trajetória de Máira Rocha. Contra ela também existem acusações de ameaças, charlatanismo e estelionato. Procurada pelo Fantástico há mais de duas semanas, Máira não quis gravar entrevista. Para a empresária Marina Escames, a perda de seu marido Thiago foi devastadora: "Quando ele partiu, pra gente foi uma ruptura que é muito difícil aprender a viver sem ele". A comerciante Marcela Magalhães relata a dor de enterrar seu filho Henrique, de 18 anos, que faleceu em um acidente de carro : "Você precisa se agarrar a qualquer coisa, porque senão você afoga você vai junto com ele. Enterrar um filho é atravessar a maior dor. Muitas vezes, para quem fica, a morte cria uma necessidade de buscar respostas na espiritualidade . Thiago, o marido de Marina, morreu de leucemia . "Eu sou espírita kardecista desde que nasci, então eu sempre acreditei muito na psicografia, nos médiuns. Então eu queria muito uma notícia dele". A ajuda espiritual para Marina também tinha como objetivo aliviar o sofrimento do filho caçula, Matteo, que tinha apenas 3 anos quando o pai morreu. Também era do pai que Diva Mascarenhas Borges sentia falta. "Eu tive a informação de que tinha uma pessoa que recebia cartas, e que era muito boa". Diva e Marina procuraram a mesma pessoa, Máira Rocha . A médium declarava publicamente: "Eu quero propagar a palavra de Deus". Marina conta que acreditava piamente em Máira devido a vídeos recomendados por seu pai : "Eu acreditava piamente que ela seria uma ponte entre mim e o Thiago". Máira Rocha Reprodução/Globo A advogada Máira Rocha é conhecida como médium em Brasília. No espiritismo, médium é quem serve de intermediário entre as pessoas e os espíritos. Ela também trabalha no Ministério da Saúde. No começo deste ano, Máira Rocha construiu seu próprio centro espírita, a Casa da Caridade Inácio Daniel. A instituição atende cerca de 5 mil pessoas por mês, sobrevivendo de doações e ajudando pessoas necessitadas com alimentos, roupas e agasalhos. Em uma de suas transmissões ao vivo, ela declarou: "Procurem fazer o bem, em nome de quem você acreditar, porque Deus vai estar ali". Essa generosidade inicial encantou o ex-voluntário Antônio Carlos Felizola. "Fazíamos um bazar, também doávamos roupa, e também a Maira logo que chegou, fundou a sopa". Boa parte das atividades da Casa da Caridade é voltada para os atendimentos espirituais. O trabalho de cartas psicografadas, também chamadas de cartas consoladoras, é coordenado por Máira, e as doações servem como agradecimento das famílias. Marina Escames relembra que contribuía frequentemente: "Quando eu recebi a carta, eu me senti muito grata, então eu quis realmente fazer algumas doações. Ela estava construindo a nova Casa da Caridade. Você comprava o tijolinho, que ela ia colocar o nome da pessoa que tinha partido". Máira defendia a arrecadação financeira alegando que sua mediunidade não poderia se afastar da matéria : "A Casa da Caridade poderia funcionar com seu trabalho só mediúnico, se fosse só mediúnico, mas não existe essa possibilidade da mediunidade da Máira se afastar do campo material". Outra modalidade de arrecadação do centro eram os leilões de roupas e objetos que a médium usava em suas sessões de cartas consoladoras. A aposentada Arlete Pereira justifica sua participação nos leilões: "A gente confiava nela, então eu queria uma roupa com a energia dela porque ela convivia com nossos espíritos, dos nossos filhos, dos nossos familiares". O olho grego foi uma das peças mais caras arrematadas pelos seguidores. Máira Rocha destacou o valor do amuleto ao entregá-lo para um seguidor : "Eu coloquei as minhas energias nesse amuleto. Todas as energias ruins que eu tinha, ele me tirou e me trouxe muitas alegrias. Eu entro em casa todos os dias e vejo muitos espíritos ali perto deles." Entretanto, práticas de leilão são rejeitadas pelas instituições oficiais do espiritismo . Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira (FEB), faz uma crítica clara ao modelo. "A doutrina não nos autoriza, não nos ensina a realizar leilões, esse tipo de prática. Ela nos ensina a servir. E servir de forma desinteressada ." Em diversos vídeos, Máira Rocha afirmava que seus dons mediúnicos haviam surgido na infância, quando ela vivia em Jati, no Ceará, cidade de 8 mil habitantes. "A minha mãe conta as primeiras experiências a partir dos quatro anos. Eu me recordo a partir dos sete anos". Essa mediunidade, no entanto, nunca foi notada por seus familiares na pequena cidade . Ao ser perguntada sobre o dom de Máira, sua prima Márcia Rocha declarou : "Não. Novidade, novidade para todos nós. Como a cidade é pequena, essa mediunidade que ela alega ter não passaria despercebida". Márcia também desmistificou a história do apelido de Máira, "Lê", que a médium afirmava ter recebido de um espírito que a ensinou a ler. "Na verdade, o apelido Lê veio do nome Alexandrina, de Máira Alexandrina". O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola relembrou discussões constantes entre ela e seu esposo : "O marido dela, eles brigavam muito. Ele falava: eu vou contar para todo mundo que isso é uma farsa. Você é uma farsante!" As denúncias de fraude ganharam força a partir das inconsistências em cartas enviadas a famílias enlutadas. Marcela Magalhães, vulnerável pela dor de perder o filho Henrique, de 18 anos, relata como se sentia ao buscar ajuda : "É tanta dor, é tanta dor que você, você acredita em qualquer coisa." Ela relata que recebeu dois recados de seu filho Henrique durante uma transmissão ao vivo realizada por Máira Rocha. Na live, Máira mencionou o jovem : "Eu eu tô com o Henrique, um jogador de futebol que desencarnou muito cedo, mas mãezinha, ele tá bem." No entanto, Henrique nunca foi jogador de futebol profissional, fato que alertou o marido de Marcela : "Meu marido virou pra mim e falou assim: mas ele não é jogador de futebol. Pra mim foi um erro, dela." Marcela mais tarde identificou a origem do erro: uma fotografia de Henrique vestindo um uniforme esportivo que estava vinculada a uma reportagem de jornal sobre seu acidente de carro. A reportagem original havia cometido o mesmo erro ao descrever Henrique como jogador de futebol. Um segundo recado de Máira gerou ainda mais desconfiança, ao associar Henrique a outras duas pessoas no carro. A médium errou ao assumir que os amigos que apareciam na foto estavam envolvidos no acidente de carro. A imagem na realidade era uma montagem de uma campanha de alimentos realizada durante a pandemia, reunindo fotografias de três jovens que faleceram em épocas e circunstâncias distintas como uma homenagem de Marcela em suas redes. "O Henrique morreu de acidente em fevereiro de 2020. O João morreu de AVC em abril de 2020, e a Letícia morreu de um mal súbito, em 2005." O cruzamento sistemático de dados é uma prática comum de quem investiga golpes online, como explica o youtuber Guga Guimarães. "Então, além de cruzar os dados que estão na internet disponíveis, ainda tem as matérias online, quando a morte é trágica, e também as redes sociais dos parentes, que também é fácil encontrar. Infelizmente, a nossa vida toda está disponível na internet para quem quiser ver." O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola revelou que já tinha sérias suspeitas sobre a idoneidade das informações obtidas por Máira : "E, sinceramente, eu comecei a desconfiar. Chegavam pessoas que já receberam carta, questionando a carta." O Fantástico conversou com alguns dos maiores especialistas e pesquisadores do espiritismo e das atividades mediúnicas no Brasil. Todos reforçam a importância da carta psico fotografada, feita de forma séria, que leva conforto para quem perde alguém. Mas autoridades da doutrina espírita também fazem um alerta sobre fraudes cometidas por falsos médiuns. A reportagem é sobre pessoas que se sentiram enganadas durante o período mais difícil da vida e como, apesar da dor, é preciso estar atento a detalhes. Pedro Camilo é escritor e pesquisador espírita e investiga fraudes em cartas psicografadas. Segundo ele, dados fornecidos ao médium e pedidos de prazos longos para entregar a carta, são alguns dos pontos que merecem atenção. "Com essas informações é possível fazer uma varredura nos bancos de dados que existe na internet, elaborar um dossiê sobre aquela pessoa e sobre possíveis parentes desencarnados que que podem ter as suas informações transmitidas." Marina Escames descreveu o rígido protocolo burocrático exigido pelo centro de Máira antes das sessões : "Antes da data da psicografia, 60 dias antes, você precisa se inscrever , você e o seu acompanhante, e passar o nome completo, o CPF da pessoa que vai e do acompanhante." Marcela Magalhães relatou exigências semelhantes de documentação e passagem : "Nome completo, sem estar abreviado, e mandar um comprovante ou de hotel ou do avião." Este modelo burocrático difere drasticamente da conduta do médium mais conhecido do Brasil, Chico Xavier, como reforça Jorge Godinho: "Tinha uma multidão de pessoas, ele não sabia quem estava. Ele não tinha CPF, não tinha endereço, nada disso. Porque o telefone ele toca do alto para cá. E aí aqueles espíritos que ali estavam, que iriam trazer alguma informação, ele psicografava." Durante sua ida à Casa de Caridade Inácio Daniel, Marina Escames presenciou um ritual conhecido como "fila do abraço", realizado antes da sessão psicográfica, onde a médium costumava extrair informações de forma direta e sutil . "Então, na realidade, ela também tem esse contato, ela faz uma fila de abraço antes da psicografia." . Ao ser completada pela repórter Lilia Teles sobre a coleta de dados, Marina confirmou. " Ela perguntou o nome do meu marido completo, ela perguntou do que ele tinha falecido, eu dei uma foto dele e, assim, realmente, nessa fila de abraço, ela pegou várias informações." Na mesma sessão, Matteo, filho mais novo de Marina, correu para entregar uma cartinha pessoal à médium : "O Matteo saiu correndo antes de mim, porque estava bem cheio, chegou até ela com uma cartinha que ele tinha feito, que queria que ela entregasse para o pai dele." Dias depois, durante uma palestra pública, Máira anunciou uma revelação : "olha, tem um marido que eu conversei ontem que falou que ama a esposa. Ama pra cacete". Marina achou o jargão incomum para o perfil do marido : "Aí na hora não caiu minha ficha porque meu marido nunca falou assim. Ele sempre falava que me amava mais que tudo, que eu era a vida dele, mas não essa palavra." Contudo, ao buscar em seus arquivos de fotos e redes sociais, identificou um print antigo de um parabéns do marido que trazia a mesma expressão : "Eu entrei nas minhas fotos, que eu tenho prints de redes sociais. E lá estava uma mensagem que o Tiago me mandou de aniversário E no final ele falou: 'te amo pra cacete'. Aí eu falei: 'poxa, então é o Tiago, né? É o Tiago que mandou essa mensagem." Marina descobriu ainda que Máira havia levado as cartas prontas para o local : "Nesse dia ela falou que ela tinha já levado as psicografias prontas de casa." Ao ser indagada por Lilia Teles sobre os termos descritos na carta, Marina contou : "Falou que ele era um pai muito apaixonado e falou que eu era a âncora dele. E realmente ele tinha uma tatuagem de âncora com meu nome." A carta também relatava momentos de hospitalização e citava chá de camomila : "Passamos noites terríveis, de dor, febre e você lá, naquelas cadeiras, junto comigo. Ele tá dizendo que não aguenta nem ver chá de camomila." Marina lembrou que esse detalhe constava em um vídeo publicado por ela na internet : "Tem um vídeo que ele tá colocando, que eu tô colocando chá de camomila gelado, porque ele tava com o braço infeccionado, inflamado." Foi o filho Nicolas quem percebeu que havia algo errado. Ele acessou a rede social do pa, que estava inativa. "Eu entrei e acabei vendo muita semelhança em relação à carta. E aí na hora eu chamei a minha mãe e falei: 'mãe, olha, tá tudo aqui!'" . A mãe confirmou a descoberta após olhar o perfil . "Tinha o vídeo da camomila. Tinha minha tatuagem e o "te amo pra cacete" no final. E ali eu vi que realmente estava tudo na internet. " O único elemento ausente nas redes era a menção a um episódio de bullying sofrido pelo caçula Matteo, apontado na psicografia. "O amiguinho falou que ele era sem pai. E ela citou isso na carta. "'Matteo, agora você vai mostrar pra todo mundo que você tem um pai.' Ele chorou, ele tinha nove anos, ele pulava de chorar. E no fundo eu fiquei muito muito feliz de ele ver que o pai dele estava vivo, que o pai dele amava ele." A surpresa foi desfeita quando Marina percebeu que Matteo havia relatado o bullying no bilhete entregue diretamente à médium. "Eu sentei para conversar com meu filho. Eu falei: você conversou com ela? No dia que ele saiu dando a cartinha, ele conversou e eu não vi." Ao ser questionado, o menino confirmou : "não, mãe, eu conversei, a única coisa que eu falei realmente pra ela, eu falei que era se ela podia entregar a cartinha pro meu pai, e que ele me mandasse uma carta pra eu poder mostrar pro meu amiguinho que falou que eu sou sem pai." Para Marina, a mentira foi devastadora : "pronto, a única coisa que me apegava foi o meu filho que falou pra ela!. O que mais me machucou foi o que ela fez com o meu filho. Foi o segundo luto, tanto para mim quanto para o meu filho." O menino entrou em depressão após descobrir a farsa . Em apoio às vítimas, sete lideranças espíritas assinaram um manifesto e apresentaram uma notícia-crime contra Máira Rocha na Justiça por estelionato, charlatanismo e por crime cometido com base no artigo 232 do ECA: submeter criança ou adolescente a vexame ou constrangimento. O advogado criminalista Luiz Henrique Machado explica o crime de estelionato espiritual : "O tipo de estelionato é justamente quando procura, nesse caso específico, se instrumentalizar a fé, ou seja, enganar a pessoa dizendo que possui informações extraordinárias, quando na verdade está enganando a pessoa, está buscando informações em bancos de dados, eventualmente na internet, e entregar uma carta psicografada que na verdade ela é fake." Diva também encontrou erros na carta do pai. "Logo no início da carta fala que meu tio queria falar com Judite. Judite é a esposa do meu tio. Só que a minha tia já tinha falecido um ano antes do meu tio falecer. Então, parecia que meu tio tava que ele não sabia que a mulher tinha falecido." Diva também achou estranho como a carta se refere a dois irmãos dela. "E eles são filhos adotivos, assim como eu, foram registrados como Edvano e Edvani. Quando minha mãe e meu pai adotaram, eles acrescentaram o nome Sheila e André Luiz. Então ninguém chamava na família a Sheila e o André de Edvano e Edvani. " Sheila chegou a retirar o nome Edvani da identidade. Mas são esses nomes, Edvano e Edvani, que aparecem na carta. "Tava ali, na nternet. A ordem todinha do inventário era igualzinha a que estava na carta. É como se estivesse copiado e colado. Eram erros assim que estavam ali e que meu pai não cometeria." A carta dizia ainda que o aniversário do pai de Diva seria no dia 5 de maio, mas a data estava errada. "Começa falando que era aniversário dessa pessoa. Eu relaxei, porque o meu pai, ele nasceu dia 16 de maio. Ela continua lendo a carta e ela vai citando nomes. Minhas filhas é que falaram assim: "Mãe, é o vovô,. Você fica na dúvida. Por que que ele erraria o aniversário dele? Foi, aí eu comecei a fazer pesquisa e aí saiu um blog de Jequié, que é a terra dele. Constava que ele tinha nascido dia 5 de maio de 1918. E eu falei: "epa, o erro tá aqui" Ali meio que desmontou toda a carta. Só que você tá dentro de um ambiente que é assim, lotado de gente, todo mundo muito emocionado, pessoas chorando e você é meio que envolvido dentro desse turbilhão de sentimentos, de emoções. " Diva procurou a Federação Espírita do Distrito Federal e descobriu que já havia outras denúncias. "Essas pessoas traziam um luto, uma dor muito grande e buscaram nessas cartas uma espécie de consolo. E aí depois descobriam que aquela carta não era verdadeira ou que as informações eram informações, ou estava em jornais, ou em internet, em mídias sociais", diz Paulo Costa, presidente da entidade. Silvano é outro que também denunciou Máira Rocha. Ele considerou a carta da mãe, morta no ano 2000, uma fraude. "Ela coloca o seguinte: "Saudade de todos, queria ter convivido com todos os meus netos. Ivy, Gabriel, Taiyana, Rafael, Tabata, Walesca, Leticia, João Lucas, Nicole, Luis e Silvano. Nós percebemos que ela esqueceu de um neto. Minha mãe não esqueceria de um neto. Mas o mais sério é a Tábata. A Tábata não é neta da minha mãe. Ela é sobrinha da minha cunhada. Eu resolvi registrar um boletim de ocorrência. Na Polícia Civil do Distrito Federal, eu relatava a carta, né, e dizia das incoerências." Silvano registrou duas novas ocorrências no Distrito Federal, por charlatanismo e por ameaça. Antônio e a mulher dele também foram ouvidos no mesmo inquérito que investiga fraudes com cometidas por Máira Rocha. Há registros policiais contra ela em pelo menos cinco estados, por estelionato, calúnia e difamação e ameaça. Além disso, o Ministério Público recebeu e analisa acusações por apropriação indébita, desvio de recursos, rede de influência com servidores públicos. As vítimas dizem que ainda tem muitos que desistem de denunciar por medo das ameaças. Ela falou comigo: "Se eu continuasse que ela ia fazer uma live aonde ela ia contar determinadas coisas que eu tinha contado para ela, uma dor muito grande, um problema muito sério que havia acontecido comigo e que eu desabafei com ela", diz Marcela Magalhães. A própria Máira Rocha deixa claro que não tolera questionamentos. "Cuidado na pedra que você joga, tenha absoluta certeza que seu telhado não é de vidro. Para você possa fazer isso. Se a pessoa for lá dizer que eu peguei na internet, até eu posso completar o recado. Agora se ela vai gostar é, de ser dito isso em público, eu não sei, né? Eu prefiro responder um processo cível, porque provavelmente vai acontecer, já que eu vou falar o nome das pessoas, prefiro pagar, né? Prefiro pagar a indenização." O psicólogo e pesquisador Everton Maraldi fala dos impactos negativos numa pessoa em luto que se sente enganada. "Esse efeito, ele pode ser para muitas pessoas desastroso. Você pode levar essa pessoa a questionar as suas crenças, a sua visão de mundo e prejudicar o seu bem-estar, a sua saúde mental." As cartas psicografadas são temas de pesquisas científicas há pelo menos 15 anos no Brasil. Elas buscam explicar a atividade mediúnica e o que acontece durante as sessões de psicografia realizadas com total seriedade. Na Universidade Federal de Juiz de Fora, o Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde, o NUPES, é um dos centros de estudo mais ativos do Brasil. Ele é liderado pelo psiquiatra e pesquisador Alexander Moreira-Almeida. "Nós selecionamos médiuns que fazem esse trabalho de ponto de vista voluntário, que não tem nenhum benefício material com isso. O segundo critério: nós selecionamos pessoas que vão ter contato com esse médium, pessoas enlutadas, mas essas pessoas não têm contato prévio. E depois quando começa a pesquisa em si, quando o médium encontra o familiar, o médium é monitorado continuamente até o momento que ele psicografa. Há, de modo muito consistente, evidências de que há pessoas médiuns que são realmente capazes de obter informações muito precisas sobre as pessoas falecidas sem ser por meios convencionais." O Fantástico enviou mensagens, ligou, procurou Máira Rocha diversas vezes para que ela respondesse as denúncias de fraude nas cartas psicografadas, mas Máira não aceitou gravar entrevista. "Eu estou fazendo isso quase como um apelo. Que a pessoa tem cautela ao estar buscando esses falsos médiuns. Porque isso prejudica. Eu chamo de estelionato por luto, prejudica mais o sentimento de perda. Porque ali não há uma autenticidade daquela mensagem, é uma mensagem forjada. É um crime lesa-a-Deus.", diz Jorge Hessen, pesquisador do Espiritismo. "O próprio Allan Kardec, O Livro dos Médiuns diz que todo médium que for pego em fraude deve ser sim denunciado, deve ser desmascarado para que as pessoas verdadeiramente sérias não sejam enganadas por aquele indivíduo, não sejam levadas à falsa compreensão, a uma compreensão mentirosa da realidade", diz Pedro Camilo. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo. PRAZER RENATA O podcast 'Prazer, Renata' está disponível no g1, no Globoplay, no Deezer, no Spotify, no Google Podcasts, no Apple Podcasts, na Amazon Music ou no seu aplicativo favorito. 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